Inflação ao consumidor caminha para fechar 2018 abaixo de 4%

O jornal Valor Econômico publicou nesta terça-feira (27) matéria sobre a inflação caminhar para fechar o ano abaixo de 4%. De acordo com a publicação o número é reflexo do cenário mais favorável para os preços da gasolina e para a conta de luz, num ambiente marcado ainda por grande ociosidade na economia, o que limita o espaço para reajustes de preços. Nas últimas semanas, analistas reduziram com força as estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA). Desde o fim de outubro, elas caíram de um número próximo a 4,5%, a meta perseguida pelo Banco Central (BC), para algo entre 3,8% a 3,9%.

Divulgada na sexta-feira, a alta de apenas 0,19% do IPCA-15 em novembro contribuiu para esta onda mais recente de revisões – foi a menor para o mês desde 2003. Prévia do IPCA, o indicador mostrou pressões inflacionárias pouco disseminadas e um comportamento benigno dos núcleos, as medidas que buscam reduzir ou eliminar a influência dos itens mais voláteis. Com a inflação tranquila, tudo indica que o BC poderá manter os juros em 6,5% ao ano por mais tempo. A variação modesta do IPCA deste ano também vai colaborar para o indicador ficar mais baixo no ano que vem, devido à inércia inflacionária, o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura.

O consenso de mercado informado ontem pelo BC indicou mais uma queda nas projeções dos analistas para o IPCA de 2018 e de 2019. Para este ano, a mediana das estimativas passou de 4,13% para 3,94%, depois de bater em 4,44% em meados de outubro. Para o ano que vem, o recuo foi de 4,2% para 4,12%. Já o consenso dos chamados Top 5 de médio prazo, que reúne os economistas que mais acertam as previsões, caiu abaixo de 4% para 2018 e para 2019. A mediana é o número que está no centro de uma distribuição de dados.

Dois principais fatores contribuíram para a melhora recente do quadro inflacionário, segundo a economista Basiliki Litvac, da MCM Consultores Associados. Com mais chuvas, melhoraram as condições hidrológicas, apontando para um quadro mais favorável para as contas de energia elétrica. Além disso, o preço da gasolina caiu com força nas refinarias, devido à combinação do tombo das cotações do petróleo no mercado internacional e do câmbio mais valorizado. “Esses dois eventos ajudaram muito a Petrobras a promover cortes consecutivos dos preços da gasolina”, resume o economista Fabio Romão, da LCA Consultores.

Basiliki baixou a projeção do IPCA de 2018 de 4% para 3,8%. Para o indicador de novembro, ela espera deflação de 0,15% – a estimativa anterior era de estabilidade. Ela aponta cinco fatores que justificam a provável variação negativa do IPCA no mês. Primeiro, a queda da conta de luz, decorrente da mudança de bandeira vermelha patamar 2 para bandeira amarela. Depois, a “intensificação da redução dos preços dos combustíveis nos postos a partir da segunda quinzena”. Desde o fim de setembro, a Petrobras reduziu as cotações da gasolina em 33% nas refinarias, diz ela.

Se 40% dessa queda chegar às bombas, os preços cairão 13%, afirma Basiliki, para quem a gasolina deve recuar nos último bimestre deste ano e talvez até mesmo em janeiro do ano que vem. Romão acredita que, no IPCA deste mês, a gasolina vai recuar 2,25%.

Para ajudar na deflação de novembro, Basiliki também cita “a moderação da alta de passagens aéreas, o arrefecimento das altas dos alimentos in natura e recuos dos produtos semielaborados” e o fato de que os “bens duráveis e vestuário podem ceder com os reflexos das promoções e descontos neste mês com a Black Friday”.

Para dezembro, ela reduziu a projeção de 0,2% para 0,1%, por causa da perspectiva mais benigna para preços de combustíveis e alimentos. Além disso, a estimativa “também contempla a premissa de mudança para bandeira verde na conta de luz em dezembro”, de acordo com Basiliki.

Romão prevê igualmente um IPCA de 0,1% no mês que vem, apostando que haverá bandeira verde para a conta de energia. “Se não estivesse com bandeira verde para dezembro, a minha projeção seria de 0,17% para o IPCA”, diz ele.

Outro fator que ajuda a manter a inflação sob controle é a grande ociosidade existente na economia, destaca Romão. O mercado de trabalho, por exemplo, melhora a passos lentos, num quadro de desemprego ainda muito alto. Esse quadro não chancela grandes reajustes de preços, diz o economista da LCA. No IPCA-15 de novembro, o chamado núcleo EX 2, formado por serviços, alimentos e produtos industriais que reagem mais ao comportamento da atividade econômica, teve variação de apenas 0,04%, depois de subir 0,32% em outubro, nas contas da MCM. Em 12 meses, o IPCA EX2 desacelerou de 2,34% para 2,31%, abaixo do piso da banda de tolerância da meta, de 3%.

O câmbio mais valorizado também ajuda a conter alguns preços do IPCA. É o caso dos bens industriais, que caíram 0,1% no IPCA-15 de novembro. Em 12 meses, a alta desse grupo é de apenas 1,6%.

Para o economista Elson Teles, do Itaú Unibanco, a influência maior para conter esses preços é da ociosidade, que dificulta repasses de aumento de preços da indústria para o varejo.

Teles estima um IPCA de 3,9% neste ano, também destacando a expectativa favorável dos preços da gasolina e da conta de luz para justificar a melhora no cenário para o indicador nas últimas semanas. Para ele, a inflação mais baixa deste ano vai contribuir para um quadro mais tranquilo no ano que vem, beneficiada pela inércia. “De alguma forma, isso vai ajudar em 2019”, diz Teles, que projeta, por enquanto, um IPCA de 4,2% para o ano que vem, muito próximo da meta de 4,25% a ser perseguida pelo BC. A projeção, porém, tem um viés de baixa, segundo Teles.

Para 2019, Romão estima um IPCA de 4,3%. Na visão do economista da LCA, os preços de alimentos e de serviços ficarão um pouco mais pressionados no ano que vem – os primeiros ficaram muito comportados em 2017 e 2018, e para o ano que vem deverá haver a influência negativa do fenômeno climático El Niño. A economia mais forte deve sancionar altas um pouco maiores de serviços. Na outra direção, a expectativa é de um comportamento mais benigno dos preços administrados (como tarifas públicas e combustíveis).

Com esse ambiente inflacionário em geral tranquilo, o BC deve ter espaço para manter a Selic em 6,5% por mais tempo. O Banco Safra, por exemplo, espera que a taxa fique inalterada ao longo de todo o ano que vem, projetando IPCA de 3,8% em 2018 e de 3,9% em 2019. A MCM, por sua vez, vê o primeiro aumento no quarto trimestre do ano que vem, diz Basiliki, ponderando que a alta pode ser eventualmente adiada. Já a LCA acredita numa elevação a partir de julho. Uma alta da Selic nos próximos meses parece bastante improvável.

Valor Econômico

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